segunda-feira, 30 de abril de 2012

filhodap



Fiquei um tempão sem postar, eu assumo...
Durante este período, canalizei minha energia criativa para o Zine Pasárgada e acabei deixando o meu próprio blog em segundo plano. Agora o Zine fechou, e como bateu aquela vontade de postar, estou aqui de novo. Até aproveitei para registrar um domínio e deixar o endereço do blog mais curto e fácil de decorar! 

Como meu blog é aberto a todas as idades, vou tomar hoje muito cuidado e evitar escrever uma palavra específica (vocês já saberão qual é). Acontece que se algum chato denunciar meu blog por uso de palavrão, ele vai parar na lista de "blogs para maiores", com aquela mensagem de "tem certeza que quer acessar este blog?" no início! Eu não quero isso (por enquanto). 

Hoje quero falar algo sobre elas, especialmente elas (às vezes eles), as garotas de programa, as prostitutas, as meretrizes, as p#ta$, e falando com o português politicamente correto: as profissionais do sexo. Linguisticamente falando, estes termos historicamente foram colocados no balaio dos "palavrões", das palavras utilizáveis para ofender alguém, seja referindo-se ao próximo ou à mãe do próximo. 

Fiz uma pequena pesquisa e descobri que a palavra p#ta se origina do latim "putus", que significa "menino", e no latim vulgar se transformou em "puttus" e ao se flexionar para o feminino se transformou em "putta". Outro significado, também do latim, vem de "putìdus", ou seja, algo que cheira mal, estragado. Sendo assim, é provável que uma palavra simples como "menina" tenha se tornado pejorativa (várias outras palavras tiveram um percurso etimológico semelhante). 

Já ouvi mil vezes que essa é a profissão mais antiga da história e bla bla bla... se a informação confere ou não, eu acho que agora não vem ao caso. Eu, como a maioria dos brasileiros, cresci ouvindo o termo de forma negativa, considerando as pessoas que atuam nessa área como inferiores, e por ai vai. Cresci ouvindo o termo p#ta ou seus derivados como palavrões, palavras de baixo calão, depreciativas. 

Em 2006 fui trabalhar na Secretaria de Direitos Humanos e aprendi a rever conceitos, quebrar paradigmas. Eu nem sabia, mas carregava alguns tipos de racismo, de homofobia (especialmente contra travestis e transexuais), e de outros preconceitos. Trabalhar nessa Secretaria me transformou de uma maneira muito marcante. E nessa caminhada, ouvia sempre falar de uma guerreira chamada Nanci Feijó. Ela era a presidenta da Associação Pernambucana das Profissionais do Sexo. Uma mulher que dedica sua vida a orientar as mulheres sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, violências contra o segmento, incentivava as meninas a contribuir com a previdência social, a estudar... 


Um dia recebi uma senhora na minha sala, pedindo orientações sobre a matrícula de seu neto (surdo) na rede municipal de ensino, com atendimento especializado. Conversei um bom tempo com ela, até que pedi seus dados, pois entraria em contato depois de verificar sua solicitação. A surpresa foi quando ela disse seu nome: Nanci Feijó. "Você é a famosa Nanci? A presidenta da APPS? Poxa, que alegria te conhecer! Aqui em Direitos Humanos falam muito bem da senhora!" Ela ficou toda boba, um pouco tímida, mas conversamos um bom tempo e aprendi muitas coisas naquela conversa. 

Comecei a re-significar a ideia que eu tinha das profissionais do sexo. Quem é o dono do corpo delas? Elas mesmas? Ainda sou contra a exploração do corpo do outro - infelizmente uma porcentagem significativa dessas meninas é explorada por "empresários", cafetões, pessoas que tiram proveito da situação. Me entristece também saber de mulheres que não são profissionais do sexo por opção, mas por falta de opção, querendo estar em outra, estudando, trabalhando... Para essas mulheres, especificamente, a prostituição pode ser uma violência simbólica muito grande. Também não me agrada uma ou outra que vivenciam cenas impróprias para menores no meio da rua, a qualquer hora (mas essas cenas não são protagonizadas apenas por profissionais do sexo, e sim por pessoas que fazem o mesmo de graça). 

Sinceramente, é hora de deixar de hipocrisia e parar de falar mal das p#tas! A sociedade pudica enche a boca para falar mal delas, assim como fala mal de gays, de transexuais, mas a tal "promiscuidade" está nas micaretas, nas boates, de graça, está na televisão, nas novelas, nos reality shows... Nas palavras da própria Nanci, as profissionais do sexo não vendem seu corpo, mas um serviço: vendem fantasias sexuais, vendem companhia, vendem prazer. Não deve haver nada que impeça sua atuação. Louvo pessoas como a Nanci, que orientam as mulheres, e lutam para que elas tenham uma vida digna, tenham uma base psicológica, pensem no futuro. 

Agora, na minha chatice linguística, me irrito quando alguém chama um político de filho da p#ta, da mesma forma que me irrito quando alguém usa termos como gay, viado, entre outros, como termo depreciativo (já falei sobre isso no blog do Zine Pasárgada). 

Ah! Se tiver curiosidade, procure no YouTube vídeos da Nancy Feijó. Ela foi entrevistada pelo Jô Soares (aliás, uma entrevista divertidíssima, vale a pena conferir). Veja ainda uma reportagem sobre ela clicando aqui. 

"Nada causa mais horror à ordem que mulheres que lutam e sonham"
José Marti



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